Começava a canela com uma meia branca, limpa. Gostei. Mas gostei mais ainda do que vinha depois. Bati o olho e amei: vi a batata da perna mais linda da minha vida. Bem definida, morena, pelos suficientes. O interesse foi instantâneo, e eu precisava descobrir o que tinha acima dela.
Mas o sujeito estava de costas. Alto, cabelos compridos. Nas mãos, um pocket book que ele não largava por nada – nem pelas curvas da serra, nem pelas freadas estúpidas do motorista. O título, “Peter Pan”. Julguei fraco, mas mudei de ideia quando vi que era em inglês.
As mãos bonitas, firmes, dedos compridos, mas não finos. Um antebraço definido. Assim como as costas, cobertas por uma T-shirt verde água; belo contraste com a pele morena.
Olhos fixos no livro, nas mãos, no antebraço, nos cabelos negros e sedosos, na batata, na batata, na batata. Eis que ele dá uma virada súbita, possivelmente em busca de um lugar. Vi apenas um bigode espesso e tão escuro quanto os cabelos. Me atiçou mais ainda.
E as curvas, e o bigode, e a imaginação fluindo por longos minutos. Quando menos espero, ele fecha o pocket book sem marcar a página. Abre a mochila vermelha, com um guarda-chuva na frente, e guarda o Peter Pan. Mexe no cabelo, se vira e olha pra mim. Profundamente. Três segundos talvez, mas uns dos mais demorados e mais esperados.
E então veio…a decepção. O sujeito era feio. Nem a olhada profunda, nem o bigode, que não vinha com uma barba, mas com uma barbicha caprina, nem a tão desejada batata compensavam aquele rosto – não era de todo o mal, mas não correspondia em nada às minhas expectativas.
Eu já tinha planejado uma troca de olhares, de abraços, sair para jantar, pensado que ele morava depois da Estrada do Pau Ferro, o fim do cabelo comprido, o adeus à xuxinha, a satisfação com o cabelo raspado. Mas tudo terminou ali, com a mesma rapidez que começou. Ainda bem, achei fraco ler o Peter Pan.
Enviado por Laura Benck